Autorretrato em Terceira Pessoa

E então ela disse. Não o que talvez ela quisesse falar de verdade, mas ainda assim as coisas que ele precisava ouvir, que no intimo ele esperava e até que já tentaram lhe dizer, mas que tinha que ser ela, pois mesmo ignorando todas as coisas que orbitam ao seu redor, coisas das quais ele não queria mais saber, o afetavam e ela sabia… Sabia de alguma forma não oficial, talvez subconsciente, mas que ela sabia, e se fazia saber. As palavras que saíssem de sua boca ganhariam aquele tipo de significado que só se encontram nos lábios dela, no sorriso torto quando se diz ou se escuta alguma besteira, na histeria incontida de seus sentimentos talvez mal guardados. Aquela voz que nem ela sabe até onde chega, que teme talvez gritar quando não se tem alguém por perto.

Será mesmo que sozinha em casa ela poderia gritar? Será que se ela o fizesse as paredes ouviriam? Talvez os gatos, mas estes não diriam nada, mas e as paredes? Denunciariam as coisas que ela quer tanto esconder? Ela não sabia e temia os segredos que não podia guardar, que e não conseguia contar. Sua ligação era nebulosa, mas não importava era forte e isso bastava. Era inexplicável, e enquanto ela procurava as respostas para as mesmas perguntas ele as ignorava, mas é tão necessário saber os porquês? Sempre tentando resolver os problemas, sempre querendo fazer o que precisa, sempre se esquecendo de si, sempre tentando ajudar, mas conseguia ao menos ajudar a si mesmo? Não, e ele sabia disso.

Não conseguia, mas tentava olhar sua mente de uma perspectiva diferente, e soube mais tarde que essa visão ele encontraria em outros olhos: os dela. O que significava pra ela? Ela sabia, ou pelo menos compreendia em parte, mas não dizia. Ele não se importava, tinha medo de saber o que realmente se escondia por trás daqueles olhos. O que ela significava pra seus olhos? Ele fugia das perguntas assim como das respostas e não queria saber, nem precisava. Não ali, não agora. Ele teria tempo para isso mais tarde, ele sabia, sempre soube, mas ele tinha medo. O tempo não trabalhava como a seu favor e quase nunca conseguia fazer dele um aliado. Tentar resolver problemas trazia sempre outros à tona, mas do que ele poderia correr? Conseguia saber de muitas coisas, mas para isso cegava sobre muitas outras. Precisou que ela o obrigasse a parar, para que pudesse ver tudo o que ignorava, para ao menos tentar descansar. Tentava acompanhar o movimento dos ponteiros, mas teve que parar e ver o relógio, para saber que seu ritmo era outro. Ele não vivia, mesmo dizendo que sim, mesmo mostrando que sim no fundo sabia qual era a verdade.

Então ele pensou pela primeira vez em muito tempo que seria bom simplesmente viver sem pensar ou se preocupar com prazos ou planos de futuro. Não importava mais o que acontecia, o que estava acontecendo ou mesmo o que iria acontecer, seus planos não poderiam ser concluídos ali. Era um processo, e ele lutava para entender como seguir seu próprio curso, como ser ele mesmo, mas para isso precisava saber como era ser outra pessoa, precisava saber como eram as outras pessoas. As decisões que tinha que tomar não dependia dele inteiramente então resolveu parar de se preocupar, deixar o tempo passar como deve passar deixar as coisas acontecerem como devem, sem pressões ou interromper. Resolveu uma vez na vida se deixar levar. Talvez significasse sofrer mais depois, mas agora não importava, ele queria apenas viver sem se preocupar com coesão ou gramática, sem equações ou incógnitas, sua Caixa de Pandora guardava segredos que ele poderia esperar mais para descobrir.

Ele não vivia e isso era certo, era fato, mas era só uma fase. E fases passam. Ele aprendia com ela a ter mais paciência, mesmo sua cabeça tão cheia que não conseguia pensar, ele ainda assim poderia parar, poderia ao menos tentar de novo. Não importava agora as coisas que teria que fazer outro dia, dos planos e dos problemas, das dores nas pernas ou no incomodo do metal em sua boca. Não queria mais pensar nas ex-namoradas com novos namorados. “Fico feliz por você, é melhor assim, é bom te ver feliz” ele pensava. E no fundo ele sabia que estar sozinho por vontade, mesmo sendo isso tão nonsense aos olhos de estranhos, aos olhos conhecidos, mesmo que esse período fosse induzido, forçado de certa forma pelas semanas isolado do mundo, mal saindo de casa, o fizeram pensar em coisas que doíam nos pensamentos que afastava mesmo sem saber o que realmente precisava pensar.

Só queria descansar, mas não sabia como. Queria paz, mas será que sabia mesmo o que era isso? As coisas que ele queria deixar para mais tarde, mas que não podia evitar, ele não queria, mas ele pensou, ele quis, ele precisou de cada segundo, de cada palavra, de cada cicatriz, de cada gota de sangue, dele ou não, que viu cair. De cada lágrima que não conseguiu chorar, ou de cada uma das que foi culpado. Preferiu deixar a poeira baixar, e que tivesse forças ou idéias novas para resolver. Agora ele só queria esquecer-se do resto, do mundo, de tudo e de todos e simplesmente viver, se reencontrar. Aproveitar como poderia. Já que sinceramente nada era como devia ser, então por que tentar mudar tanto, tentar mudar tudo, todos, ninguém? Em sua casa fechava a porta, e o mundo… Que fique do lado de fora.

(01/11/09 – 16/11/09
20h15min – 20h45min)

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5 Comentários

Arquivado em Contos

5 Respostas para “Autorretrato em Terceira Pessoa

  1. Carolzynha

    Belo conto, diz muito sobre muita coisa…

  2. Dreh

    Mudar é bom, sempre é bom, pois nos dá uma nova perspectiva de como prosseguir nesse turbilhão de pensamentos e identidades que chamamos mundo. Basta ter criatividade em como dar os passos ‘certos’

  3. jay

    te amo taffa D: eu n sei oq escrever em comentarios ta? HDOUEIJM,KA0DIJAEDIADPOKPOADK fico feliz de voce me entender um pouquinho, por menos que seja ^^ a gente é a prova que a distancia nao acaba com uma amizade de verdade *-* DHUHDEOAU Q GAY ISSO QUE EU FALEI. o texto fico lindo flw.

  4. Pingback: Os números de 2010 « A Valsa das Flores Mortas

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