Diário de Bordo

Não entendo, não lembro, não cabem em mim as lembranças. Tanto se fez e desfez sob meus pés, entre meus dedos, e o que parecia perdido se perdeu de vez no horizonte. Enfim você veio me disse ‘oi’ quando não esperava nem ‘até logo’ e me cobrou a velha sinceridade de dias que não se viam mais. Temi perder as velhas marcas, os velhos hábito, tímidos, talvez infantis, mas sempre sinceros sempre verdadeiros. Não quis mentir, não pensei em omitir, não me restava nada, a não ser a sinceridade que cultivamos por tanto tempo. Você não quis respostas vagas, dadas por costume, e eu me vi cansado, sem sair da casa… Sem querer sair, sem poder ficar.

Vi-me em dias tão longos, e tão confusos que me esqueci até da dor de te ‘esquecer’, pois nunca te tirei realmente do coração, mas o havia guardado em um lugar oculto, pra não me afetar, não poderia suportar mais as dores que me via tão enraizado, quase acreditava que faziam parte de mim. Respeitava seu namoro repentino, como repentina foi à forma como me chegou a noticia, aceitei sua decisão em silêncio, pois prometi te esperar, e te deixar livre pra crescer da melhor forma que encontrasse. Temia te ver online, não gostava dos nomes e avatares, evitava pensar e de repente você veio. Perdia meu tempo entre trabalhos braçais e origamis, entre palpites furados e conselhos para problemas que não eram meus, mas que somavam no peso que carregava sobre os ombros. Nunca te evitei minhas verdades, nem mesmo meus segredos mais profundos, sobre mim, sobre meu passado, sobre elas.

Sempre queria saber mais e mais eu falava, mesmo sem entender seu interesse, sobre mãos, bocas e perfumes que não eram seus e sobre respostas, toques e atenções que não eram dirigidos a ela, e a cada pergunta sincera, uma resposta longa, detalhada e paciente. Sempre querendo mais, sempre pronta para ler uma poesia, mesmo dedicada a outros olhos, ou um conto motivado por outras tristezas, dos quais guardo e me recordo com demorada displicência. Respondia a todas as perguntas, às vezes sem saber o motivo, ou sem prestar atenção, quase de forma mecânica, para alguns termos ainda me encontrava fora de prumo, fora do meu centro. Conversamos sobre tudo, sobre todos, de minhas ex-namoradas, até relações em vidas passadas, coisas que me deixavam constrangido ou transtornado. Então você não sabia mais dormir sem me falar, e sempre insistiam minutos a mais de conversa, que às vezes não os tinha, mas que alongavam os poucos que restavam, nos poucos minutos que dedicava a mim, minutos em que se esquecia do mundo por seus olhos, suas palavras, e pelo medo de não saber o que esperar, sem saber o que fazer.

Uma dessas noites os minutos se arrastaram e tornaram-se horas, a noite que não passava tornou-se neblina encobrindo um Sol tímido atrás de vapores espessos, horas de conversa, de escrita em papel vegetal, uma carta perdida entre tantas coisas que queria dizer, nos CDs que procurei e tive receio de esquecer sobre a mesa, do chá quente que embalou minha insônia. As músicas no computador ligado sem parar a tantas horas como meu corpo desperto, dei por mim em busca de algo que não sabia mais se era real, ou se era apenas sonho, se era real temia dormir, se era sonho não queria acordar, andei por muitos lugares, perdido no mesmo lugar sob cones maiores que alguns palmos e filhotes de quero-quero andando para os lados.

O livro que carregava, sempre vários, que devorava ávido, enquanto me mexia inquieto com o livro em minhas mãos. A Inconsistência da espera, o medo de quem não chegava, e quando não esperava você veio. Tão eufórica quanto eu, por dentro, tremendo, temendo fazer uma bobagem, cometer algum erro, devorando chocolates para parar e agir com alguma noção, pois estava fora de mim, meu mundo dependia daquilo, minha vida dependia dela, ali ao meu lado, com seu sorriso lindo, sincero e tão calmo.

Andar, procurar algum lugar para ficar, falar besteiras, empurrar o silêncio para aquele canto que todos conhecíamos tão bem, afastar do constrangimento, do medo de falhar por bobagens. Deitou-se em meu colo e fechou os olhos, eu estava fora de mim, não sabia que reação ter, não sabia o que seria certo fazer e aproximando meu rosto do seu, soprei tímido seus lábios, seu rosto acompanhou o movimento, de olhos fechados, eufóricos a olhos vistos seus lábios tão maravilhosos, com os quais sonhei por tantos meses enfim tocaram nos meus.

(03h07min-
18/03/10)

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2 Comentários

Arquivado em Contos

2 Respostas para “Diário de Bordo

  1. Pingback: Os números de 2010 « A Valsa das Flores Mortas

  2. latifarpinheiro12

    Você sempre se superando!!!
    Bjos!

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