Noite (Sonho)

Ele caminha pela calçada, terno, mocassim e uma pasta sob o braço, ambos pretos. De passo apressado, porém firme, enquanto segue seu caminho. Sua ultima semana foi apressada e bem recompensada e essa semana está apenas começando e trabalho é o que não lhe falta, mas lhe falta algo, e ele não sabe dizer o que é, e na verdade nem tempo tem para pensar nisso.
Ela passa. Ele a vê. Um relance, rápido demais pra ser percebido, mas ele reconhece aquela boca e o movimento daquele cabelo de longe, e muda seu caminho. Ela para. Ele a intercepta, segurando seu braço de modo firme, porém gentil, ele a estuda com os olhos enquanto ela mantém os seus fixos em seu rosto. Com um movimento ela o repele e sai, ele fica por alguns instantes e continua seu caminho. O dia passa sem dizer para onde enquanto os carros passam por ele e seus passos descrevem linhas tortas na calçada.
Chega ao prédio cansado, e sobe ao seu apartamento pelo elevador, enquanto a noite cai atrás da parede de vidro. Ao sair para o corredor busca suas chaves de forma quase mecânica e entra esquecendo as mesmas na porta. Deixa suas coisas no escritório levemente desorganizado e seus sapatos no meio do caminho. Passeia pela sala sentindo o carpete em seus pés quentes dentro de suas meias finas. Seu paletó descansa sobre a escrivaninha, entre papéis e canetas técnicas, contraste lacônico entre as estantes com livros que já leu tantas vezes, e dos muitos outros que nunca tivera chance de abrir, ainda novos, acumulando pó demoradamente. Sua camisa com alguns botões abertos, a gravata esquecida na mesa de centro entre o sofá e a TV que levou meses pra comprar, e que nunca ligara.
Em seus dedos a taça de vinho, apoiado na bancada de pedra fria da cozinha, seu corpo quente reagindo ao toque, mas ignorado apesar dos protestos e do choque térmico, nada melhor para encerrar o dia, mais um dia, um dia que ainda não acabou. Perdido em pensamentos uma gota escapa sorrateira pelo canto de sua boca, e busca o tecido fino da camisa, uma mancha que terá trabalho em tirar, na lavanderia, mais tarde. Então alguém lhe bate a porta. Ele se levanta pousando a taça sobre a bancada, e caminha sem muito entusiasmo, a campainha estridente soando em seus ouvidos mesmo tocando apenas uma vez. Ele pensa nela, bem que gostaria que fosse, e destrava a porta, sentindo a pressão dos dedos na tranca que não se mexe, lembrando que não a trancou. A porta se move enquanto lembra-se do perfume que ela usava, do toque suave daquela pele branca como pérola e o vermelho sangue de seus lábios.
Aquela figura parada a sua frente, saia justa, camisa de mangas bufantes, suas chaves em sua mão levantada, o esmalte vermelho que arrasta seu olhar para os lábios ainda mais vermelhos, seu raciocínio está lento, e antes que perceba o que acontece ela o arrasta, a mão em seu peito aberto, a outra fechando e trancando a porta com um único movimento, as chaves que voam para o sofá, o homem a sua frente sendo arrastado através do apartamento, seus ombros largos contrastam com os da figura a sua frente, pequena, sinuosa, provocante, assim como sua altura, tantos centímetros mais alto. A mão livre guia seu rosto, obrigando-o a se abaixar levemente até aproximar de seus lábios, e o lança para trás, caindo na cama desarrumada, sem reação, ele vê seu sonho tornando realidade, aquela mulher que o domina, dominado uma vez, quando tudo lhe obriga a ser o contrário. Está no céu, ou no inferno, não importa… A noite acaba de começar.
(10/10/07)

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