Cartas – 03

22-07-05

Fecho os olhos para dormir, mergulho em sonhos estranhos, você está por perto, mas não consigo ver seu rosto, sua presença é apenas uma lembrança, mas você está aqui mesmo assim.
Seu rosto é apenas um vulto, fito-o a procura de seus olhos, não consigo, sinto-me fraco ao fazê-lo, você absorve minhas energias, fantasma a espreita, espírito a vagar.
Sua voz ecoa em minha mente, parece que vem de outro mundo, distante como seu coração frio, meu corpo congela, sinto a bruma a minha volta penetrando em meu sangue e consumindo minha alma, a chama da vida está fraca e você observa mortificada a tudo o que ocorre, sinto que se afasta de mim apesar de continuar no mesmo lugar. Não quero acordar, você ignora e com um sopro me traz de volta, em minha cama, suando e tremendo de frio…

Os sonhos são imagens abstratas da vida, aprenda a ler seus sonhos e saberá controlar seu destino.

Para cada par de lírios dourados, há um tonel de lagrimas.
(Provérbio Chinês)

Sinto o gosto amargo do silêncio, da falta do que lhe dizer, da perda de mais uma oportunidade de tê-la.
23-07-05

Apenas falo o que sinto, não sou capaz de mentir. Acho que isso é bom, não sei, tento ser sincero, sempre correto, não gosto de máscaras, talvez seja por isso que me crucificam tanto, por que tento ser eu mesmo, não finjo ser algo que não sou ou estou longe de ser. Isso não importa, é irrelevante, digam o que quiser não descerei ao nível deles para provar que sou superior a tudo isso, sou mais do que pensam e isso já é o suficiente. Sou tudo isso e ninguém, irredutivelmente ninguém, será capaz de me mudar, de me corromper. Podem destruir meu corpo que não conseguirão tocar na pureza de minha alma.

Pessoas, lembranças, presenças, contatos, conversas, amizades. Sombras de uma vida, imagens deslocadas. A vida pulsando no coração que se recusa a bater, a bombear esse veneno em forma de sangue, infectando o corpo já enfermo, o crepúsculo de toda uma existência.
Fazer-me chorar é difícil, até que se descubra meu ponto fraco, uma palavra rude, não merecida ou nem mesmo esperada, pesa como um golpe de martelo, estilhaçando minha paz, expondo minha fragilidade como um corte, uma ferida aberta, sangrando.
Um rumo a ser seguido, uma atitude a ser tomada, interrompida por sua fala, sua língua de cobra, víbora, cuspindo o veneno contra mim. Parem! Não mereço tal alcunha e tratamento! Não sou um deles! Sádicos, corruptos que fazem de tudo por dinheiro e poder! Minha inocência é fato, não me subestimes, não conheces minha força! Humilham-me pensando serem mais fortes pelo meu silencio. Engano! Lúgubre engano! Estou a lhe testar, procurando falhas em sua armadura de mentiras para derrotá-lo pelo cansaço e destruí-lo com apenas um golpe. Oh, ser fraco, não subestimes um coração puro, pois sua força é infinita, mesmo que oculta por teus olhos infames.
Mestre de meu destino, eu o destrono e controlo você, que age por impulso, sem planejamento prévio, besta arrogante, fera dona de instintos mais animal que humana ataca sem ter noção da potencia defensiva, defende sem esperar ataque, pensando prevê-los, ataco quando baixa a guarda, erros sempre iguais. De que adianta querer dominar o mundo sem dominar a si próprio.

“Já que não me entende, não me julgue, não me tente.”

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