Devaneios de Walkman

Aquele olhar vago, quase inexpressivo. Queria tanto entender o que se passava por detrás daqueles olhos, que fitavam o nada de forma tão vidrada e opaca. Queria sair dali, mas sabia que ela precisava de apoio, mesmo que fosse apenas minha presença. Queria ficar, mesmo sabendo que não poderia fazer nada útil contra os fones de ouvido que a isolavam da realidade que ela tanto queria fugir, enquanto flertava com o horizonte.
Ali, parado entre as pedras, sem saber direito para onde olhar, enquanto ela reinava absoluta, silenciosa sobre a grande pedra, enquanto as ondas tentavam tocar seus pés, o vento acariciava seus longos cabelos e o som alto demais que era soprado de seus ouvidos, abafado pelo lamento das ondas, e seus olhos apagados, e o movimento repetitivo do abre-fecha da pequena caixinha em suas mãos e sua bolsa quase imperceptível de onde eu estava. A mesma fita tocada várias vezes, lado A e lado B de sua melancolia mal disfarçada.
Como eu queria saber o que se passava, sentia o tempo passar, a maré subir e me obrigar ir até a pedra onde ela estava, uma desculpa esfarrapada para me aproximar. Vi-a se encolher ao perceber minha presença, e não pude deixar de fazer o mesmo. Segundos, minutos, décadas se passaram por ali, arrastados no vai-vem das ondas. Não sabia o que fazer, nem o que dizer e estava ficando tarde. Apoiei-me para levantar, havia sido derrotado.
Um toque suave me parou, olhei assustado. Ela nada disse, mas ofereceu um dos fones, com sua musica isolante, hermética, dividindo assim parte do seu refúgio de sonhos.
(02/12/2009
02/01/2011 – 02h07min)

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3 Comentários

Arquivado em Contos

3 Respostas para “Devaneios de Walkman

  1. Olá
    Eu como um dos vários escritores de contos aqui do WordPress, gostaria de estar nos seus links. Em contrapartida retribuirei a gentileza.

    O link de meu blog é:
    http://contosbr.wordpress.com/

  2. gisselda

    música e alma:
    refúgio inconstante,
    segredos cantados,
    em um tempo e lugar!
    mais uma vez você conseguiu colocar pra fora todo sentimento que ainda não consegui traduzir,você lê sentimentos e os descreve…isso é maravilhoso!

  3. Oi, a partir de hoje peretendo comentar as obras que sairem nos meus links.
    Gostei muito do texto que exprime amor, divagação, e até um certo desespero por tentar ajudar e não poder, mas a recompensa no fim é reconfortante para retirar aquela sensação de impotência. Você teve uma sensibilidade maravilhosa e expressão incrível. Gostei muito. 😀

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