Asas e Rosas

Então ele acorda.
Tudo à sua volta é deserto, a sua volta pedras nuas de cores escuras, no ar um leve cheiro de cinzas impregnando tudo o que por ali passe, como se tudo houvesse queimado de forma lenta e contínua por infindáveis anos. Com movimentos vacilantes se põe de pé, as pedras pequenas e afiadas não ajudam. Nenhum sinal de vida ao redor, salvo sob parcas carcaças de árvores esquecidas no tempo.
O menino olha tudo com inocente curiosidade, ainda não aprendera o medo, é pequeno demais, mas já carrega algumas marcas, que só mais tarde poderá compreender seus significados. Caminha poucos passos, o sopro frio que arrasta as folhas e galhos secos passa por ele, e trazendo de lugares insondáveis o cheiro e a marca das cinzas. Caminha poucos passos pela velha trilha, guiado pela única luz que vê, apesar do céu negro, o caminho é iluminado, como se tudo emanasse luz própria.
Vultos correm por entre as pedras, sombras avançam ao redor do menino, que pouco ou nada percebe, olhando atentamente para o que está ao longe, como se em transe. As sombras avançam cada vez mais até quase o tocarem. O baque logo atrás de si o faz voltar a consciência de onde estava.
-O que pensas que fazes aqui? – A sombra alta entre as outras tantas que desapareciam por entre as pedras se aproxima da pequena figura, – Viestes aqui por que caminhos, criança? –
O menino não faz mais do que admirar o homem alto à sua frente, de vestes negras e de alvos e  longos cabelos como não mais se viam por ali. Observando tudo sempre com curiosa sinceridade, olha ao seu redor, e de volta à alta figura que o observava, que esperava uma resposta que ele não sabia dar.
-Provavelmente caiu aqui por algum acidente ou descuido… – Pensava o homem em voz alta – Tudo bem, acompanhe-me garoto. É muito cedo, mas já que veio vamos para outro lugar, por aqui andam sombras que não gostarias de ver de perto. – Disse estendendo a mão ao garoto, desvelando brancas luvas por debaixo da tunica tão negra como a Lótus que surge branca e imaculada do breu, e os olhos do garoto ali se perdiam, como se à entrar em outros sonhos, tão estranhos quanto aquele lugar.
O homem alto caminha para o outro lado, seguido pelo menino, que não cansa de olhar para os vultos de luz em suas costas, uma luz tão pura e cristalina que é quase palpável, ao perceber o olhar do menino a alta figura para de andar, e ele percebe que seus pés não tocam o chão. Perdendo-se entre as palavras pergunta:
-Com licença… Porque tens asas? – diz apontando o pequeno indicador para os vultos de luz.
-E porque você não as tem? – Respondeu o homem olhando de cima a baixo, como em uma sutil provocação.
O garoto olha por sobre os ombros e não vê nada, volta o olhar desapontado ao homem, que sorri com certa doçura, enquanto toca a aba de sua cartola com a ponta de um cetro que até então estava oculto sobre o manto negro.
-Eu… Eu poderia ter asas como as suas? – Disse por fim o garoto com uma ponta de esperança na voz.
-Não, você não pode. – Responde secamente de trás dos fios brancos que suavemente cobrem seu rosto.
Continua o caminhar, o menino seguindo seus passos, olhando par ao chão, para a sombra do homem e seus pés, difusos pela luz que sai do manto em suas costas, como se projetadas por algo que não conseguia definir. Por um longo caminho o homem segue seus próprios passos, e o menino quase fica para trás, tropeçando em pedras soltas e levantando as pressas para alcançar seu estranho guia.
-Onde estás a me levar? – pergunta o garoto, um tanto cansado da longa caminhada.
-Para onde deves ir, nem além, nem aquém.
Cotinuam a caminhada por mais um tempo em silêncio, o menino a observar tudo à sua volta, as sombras, as formas que dançam por entre as pedras no caminho sinuoso que percorre, o céu igualmente negro, de um ar tão melancólico que o deixa desconsertado, partes da paisagem que passam por ele a passos tropegos por entre as pequenas pedras afiadas. Caminham até um grande lago, tão vasto e negro como o céu do lugar refletindo a paisagem morta como um espelho frio e cruel.
O homem alto caminha até onde a superfície do grande lago beija o solo de pedra e com um leve aceno chama o garoto para perto de si. O pequeno caminha lentamente, está cansado do caminho, com arranhões nas mãozinhas que latejam. Com olhos cansados aproxima-se da água e vê seu reflexo nas águas.
-Woah! – diz ao recuar da beira, recolhendo os braços como se quisesse abraçar a si mesmo, e com um olhar tenta ver por sob o ombro, e novamente nada encontra. Vacilante volta ao reflexo que o lago desdobra por sobre sua superfície. – Co… Como pode? Porque não disseste que eu tinha tantas?
-Porque você não perguntou. – Disse-lhe simplesmente o espirito ao seu lado.
-Mas disseste que eu não poderia ter…
-Justamente. Você não tem uma, nem duas, nem poderias ter estas, apenas.
-Mas… Porque tens duas, e eu tenho tantas? – Confuso, o menino busca um sentido para tudo o que vê.
-Porque assim que deve ser, mas ainda é cedo para isso… Agora devo ir. – Diz olhando em volta, como se à medir o tempo com os olhos.
O menino observa a forma alongada e negra do manto do seu estranho guia.
-Eu… Eu posso te ver denovo? – disse por fim, com certo receio.
-Sim, mas não agora. Estarei aqui quando precisar, é só chamar pelo meu nome.
-És um anjo?
(risos)
-Não da forma como o defines. Sou apenas um Guardião.
-Qual seu nome?
-Meu nome não é importante no momento. Saberás me chamar quando for necessário, quando for a hora certa. Meu nome está onde deve estar. – Diz tocando o peito do menino com terna suavidade com a ponta de seu bastão.
-Até breve – Diz misturando-se à penumbra, até a luz de suas asas desaparecer por completo.
O menino levanta, perguntando-se como poderá encontrar aquela estranha e familiar figura novamente, e vê, onde ele estava momentos antes, uma rosa vermelha num caule com duas folhas, abaixa-se para pegar. Caminha mais adiante com a rosa entre as mãos, até o tronco de uma grande árvore aos pés do lago tão frio e tão calmo. Senta-se encostando-se à velha árvore, sendo dominado pelo cansaço e pelo sono, adormecendo por entre as sombras.
O sol bate à janela, o calor de um novo dia, sua mãe abre as cortinas do quarto para deixar a luz entrar. O menino levanta para ir à escola, não se lembra do que viveu momentos antes, nem se foi sonho ou realidade, apenas sente um doce perfume em seu quarto, que o acompanha até desaparecer e se guardar na lembrança até que o momento certo enfim se aproxime.
(29/08/2011 – 00h33min)

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1 comentário

Arquivado em Contos

Uma resposta para “Asas e Rosas

  1. Mais que brilhante, uma obra prima. Excelentes palavras e estória. Perfeito.

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