Sem Direção

Mais uma xícara e então seguirei.

O vento sopra lá fora, carregando à areia e os restos deste deserto esquecido por Deus. Tamborilo meus dedos sobre a mesa tosca, de madeira sem nenhuma tinta que possa esconder os rastros dos cupins… Sabe, eu poderia estar agora em qualquer lugar, algum restaurante cinco estrelas, ou qualquer boate de luxo com um copo de whisky em minha mão. Poderia ter tudo, casas carros, amigos e namoradas. Tudo descartável, porção única, como as porções de qualquer coisa que te dão em um avião. Poderia ter tudo, mas preferi estar aqui, em um boteco de beira de estrada no meio do deserto, à beira de um penhasco no fim do mundo.

Não que eu não gostasse da vida luxuriosa que eu vivia. Pelo contrário. Sempre tive o melhor de tudo: escolas, roupas, carros e até o apartamento no centro da cidade que qualquer um daria a vida para ter. Eu não era sozinho, tinha meu porco da índia, pobre amostra das coisas que insistia em afastar da minha mente, mas que estavam sempre lá. Meus colegas da faculdade vinham me visitar às vezes, nos divertíamos com álcool e jogos, ou não raro estudando algo inútil… Ah! Este deve ser o sonho que a maioria dos jovens devem ter, mas eu não estava satisfeito, alguma parte de mim estava vazia, faltava algo, aquela lacuna no peito que nada era capaz de preencher, ao menos não por muito tempo.

Às vezes a janela do quarto era realmente tentadora. Restava-me lutar contra o impulso de não me jogar vidro a fora, voar, sentir o ar passando por meu corpo, voar pra longe de tudo e de todos. Talvez estar no ultimo andar não era suficiente. Queria ser um espírito livre, como os personagens dos livros que li tentando achar um caminho para minha alma inquieta, dos filmes que vi para fugir de alguma crise, ou para passar o tempo aplacando o tédio. Queria sair, ser como aqueles personagens, vagar por aí como um completo desconhecido.

E cá estou eu.

Deixei tudo para trás, criei asas e voei pela janela de meu apartamento como em meus pensamentos. Talvez alguém sinta minha falta, talvez não, procuro pensar que é melhor assim, enquanto a fumaça de meu cigarro leva todos os pensamentos para longe, assim como a lembrança de um copo de whisky. O velho dono do boteco trás meu café, com seu avental de açougueiro manchado e sua barba de fim de tarde, pago com mais do que o necessário, recuso o troco. Viro tudo de um só gole, mais um suspiro e me levanto, com o ranger da madeira do assoalho, e o som seco da xícara pousando no balcão, dou alguns bons passos e a porta se abre com um tilintar distante e familiar, atravesso o umbral, o toco do cigarro já esquecido, a jaqueta surrada, o estado de ‘não ser’ que me seguia e o pensamento de que se eu fosse um cara diferente, sabe lá como eu seria.

(08/02/2011 – 21h20min)

P.S.: Baseado em um esboço de Jean A. P. Karax

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4 Comentários

Arquivado em Contos

4 Respostas para “Sem Direção

  1. Andressa Michalski

    Muito bom…..

  2. Se foi a intenção ou não, não importa,
    mas sei que só mesmo você para conseguir, com algo “aleatório” como isso, fazer eu me enxergar dentro do personagem, e sentir tudo o que ele sente.
    Demais. Isso é o que eu tenho a dizer sobre esse texto.

  3. Pingback: Os números de 2011 | A Valsa das Flores Mortas

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