Asfalto Frio e o Perfume sem Nome

Fizemos então planos demais. Planos que sabíamos, por dentro, bem fundo, que não seriam realizados, planos que foram feitos para preencher aquela noite vazia, enquanto o vento do lado de fora do salão preenchia todos os espaços, ignorado apenas por nossas cervejas pela metade. Ontem eu tive um sonho, acho que não cheguei a te contar, talvez você nunca venha saber. Sonho estranho, rápido, mas que me fez acordar diferente, pensando mais sobre tudo o que eu poderia perder, do que plantaram em nós que, para onde iríamos, dependia de nós para sobreviver.
Aqueles eram dias estranhos, onde tudo mudava quando o sól se deitava entre as colinas e o escuro trazia o vazio que eu não podia evitar. Aquela noite sorri para pessoas que talvez não me vejam mais, dancei danças que nunca mais poderia ouvir, e ao sair dali, no meio de tudo, gritei em meu intimo, amparado pelo vento sobre o asfalto do estacionamento, gritei em silêncio por tudo o que jamais viria.
Então eu a vi, e por um momento eu queria fugir, correr, me esconder para não demonstrar minha perene fragilidade, poder esquecer, esconder, fugir nem que fosse por apenas um segundo…
Então ela me abraçou, forte como eu não lembrava ela ser capaz, mas ainda assim com uma suavidade só comparada ao seu perfume, ah como eu queria sentir aquele perfume pra sempre. Ela sabia. Sabia também que era meu dever. Sabia que, mesmo sem querer, ela devia aceitar. Sabia que aquele podia ser tudo o que podiamos ter, e quando pensei que iria explodir com a confusão de pensamentos e sentimentos dentro de mim…
O silêncio veio, como o toque daqueles lábios suaves, como o redemoinho que me jogou para longe de tudo, para um estado onde nada mais importava, apenas aquele perfume. Lavanda? Baunilha talvez, não me lembro mais, mas para onde vou nomes não importam, preciso apenas sentir seu toque, sua presença, seu perfume comigo.
Logo depois ela me deixou, um adeus silencioso, ali em meu próprio orgulho, sem querer destruir o pouco que restava em mim, e o muito que ainda havia nela. Os outros vieram depois, com mais garrafas, com seus planos para outros tempos, outros mundos, e mergulhei com eles em tudo o que ainda havia, e o que nos esforçavamos para acreditar que ainda teriamos.

As garrafas secaram, o dia nasceu e o navio nos levou. Tudo o que ficou, foram planos de asfalto frio, e ventos de um perfume sem nome.
29-09/2015 23h59

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Contos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s