Arquivo da categoria: Livros

Categoria base para cada um dos meus projetos de livros: A Roda da Fortuna, A Rosa de Prata, Arcádia, Congrelatus, Haeven Hazy e O Sobretudo Vermelho

Capitulo 1 – O Quadro negro (trecho)


APATIA,
Era tudo o que sentia naquele momento, enquanto aquecia a madeira velha sob a qual me prostrava, e os minutos se arrastavam modorrentos pelo relógio de parede, acima dos cabelos grisalhos do professor. Eram sempre as mesmas aulas, sobre os mesmos assuntos, e alguns mais alienados, ou mesmo desatentos, copiavam cada linha dos garranchos no quadro de forma lacônica e mecânica. Ainda me perguntava como ainda entendiam aqueles hieróglifos, como ainda permitiam que alguém daquela idade pudesse lecionar. Não que fosse um mau professor, ele sabia muito bem cada palavra que dizia a despeito de sua idade avançada, afinal fez parte daquele inferno mais do que qualquer um naquela sala, mas já não ouvia mais o que ele dizia.

(13/12/2010)

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Livros, O Sobretudo Vermelho

Revolução!

Hoje sonhei. Há quem apenas durma ou nem isso.

A sequencia de imagens e fatos que se desenrola normalmente não se escolhe, e muitas vezes tudo se parece em câmera lenta. Nesse dia tudo me parecia como os quadros de Monet, tudo parecia mais vivo, mais próximo, porém menos nitido e difuso, ameaçador.

Ainda era noite quando levantei de meu abrigo, sob o som dos estampidos, tão comuns nesses anos todos. Levantei com os protestos das pistolas e o rangido de meus ossos gelados, depois da noite ao relento, vesti meu casaco surrado, e apalpei os bolsos atrás de meu velho relógio de bolso, unica prova de meu passado, que guardava com certo carinho, apesar do perigo e da vontade pungente de jogá-lo fora, aquele relógio ainda salvaria minha vida, e vesti o coldre com a pistola roubada, era mais fácil conseguir a munição do inimigo, então todos nós usávamos as mesmas armas que eles. Ainda me sobravam poucos minutos, olhei ao redor. Meu cantil perto da cinta bem presa, contei as balas do revólver e saí para o dia que marcaria minha vida para sempre. O

Sobretudo Vermelho –
Relatos de Dimitri Leonov ou
Revolução!

Deixe um comentário

Arquivado em Livros, O Sobretudo Vermelho

Roda da Fortuna – Palavras

Poderia dizer tantas coisas… Tantas, que não me cabem no pensamento. Tantas que esqueço ou me escapam antes mesmo de poder tê-las na retina, antes do papel, amassado, tombar na lixeira sempre ao meu lado, sempre receptiva as minhas oferendas de noites sem conta, de dias que rabisco, escrevo, descrevo, desenho linhas desconexas sobre traços paralelamente entrelaçados, entre gotas de orvalho em rosas que crescem em  meio a tempestade e formigas que se escondem sob folhas grandes demais. Materializo no som do silêncio que me cerca as idéias que não conto, não sussurro, nem mesmo atrevo dizeres ou descrições. Por que?

Para que não sejam corrompidas por pensamentos falsos, por venosas idéias de sopros que o vento trás pela janela, fechada, que separa meu mundo do resto… Não tenho um mundo meu, se já o tive o perdi a muito tempo, um castelo de vidro que  vi fecundar dos raios e das faiscas da minha antiga inocência na areia da realidade que tentei fugir, ainda criança, pela tristeza que me era emanada, na qual nunca me encaixei por que, até um (in)certo dia eu ainda era feliz demais. Uma fortaleza  interior, exterior, superior e ao mesmo tempo inferior, transparente, translucida,  lucida, Luz! Raios que refletem e reverberam entre a crueldade mascarada e as palavras  de afeto modificadas, moldadas, esquecidas em corredores estreitos de paredes grossas; que mesmo tendo visão de fora, estava dentro, isolado, ‘protegido’ de um mal que sentia, mas não sabia se era mesmo real.

Via minhas memórias bloqueadas, como peças em gelo, quadros de tintas que nunca  secam, musica que nunca se encerram, e esmiuçam suas notas até desaparecer no  desafeto de outra valsa repetida e remarcada, nos mesmos passos, na mesma dança cega. Refiz passos, desviei olhares, ignorei avisos e me atirei no abismo de minhas idéias, sozinho. Mas não sem antes desviar do que tanto me ‘protegia’, encontrar falhas, brechas, uma saída por menor que fosse, aí me entreguei com todas as forças, arrisquei alto demais, apostei minha vida e o que ainda sobrava de minha sanidade. Entreguei-me assim a minha própria loucura, inata, imaculada, escondida, real. Abri portões e passagens proibidas, contrariando os avisos por ser novidade no mundo, e  por sê-lo o fiz, como é próprio e expectado por uma criança que falava com amigos  ‘imaginários’ e se isolava do mundo, de todos pra brincar ou apenas pensar, sozinho com estranha naturalidade, com tanta ‘coragem’ e  certeza, como soube depois ser esta a opinião de quem assistia meus atos, por olhos velhos demais, por idéias à muito ignoradas. Castelo que vi se erguer na areia do tempo, e que quebrei com minhas próprias mãos, em busca de minha própria liberdade, aceitando os desafios e perigos ‘cedo demais’ vendo o mundo com olhos que crianças nem mesmo sonham em ter. O vento sopra folhas umidas enquanto minha mente vagueia e o assunto inicial se perde  em tantos outros… Idéias rápidas demais, muitas delas, das quais nunca saberei, das  quais muitas esquecerei, pela lentidão do registro das palavras que pesco no ar  enquanto elas passeiam acima dos meus olhos. Assim a Roda gira, assim se dá a primeira volta.

(02h16min
07/03/2010)

Deixe um comentário

Arquivado em A Roda da Fortuna, Livros, Voz do Blog

A Rosa de Prata – Trecho

Aquilo deveria ser fácil, como nas tantas outras vezes que já o fez, era entrar e sair, pegar o que procura, mesmo em frente a alguma possível testemunha, ele não se importava, pois normalmente elas seriam seu jantar, mas não daquela vez. Não era por alimento que invadiria aquele lugar, e algo o fazia sentir-se preocupado, como a muito não sentia. Algo estava interferindo em seus sentidos aguçados, algo fora dos planos, algo que ele não previu, e que o fazia sentir-se incomodado, que o fazia sentir algo, e isso o excitava. Seus olhos procuravam com maior ansiedade do que o normal, sua atenção estava mudando de foco a todo instante, aos pés daquela construção de pedra, madeira e barro, e o cheiro que vinha de fora, das vozes distantes que ouvia tão bem.
Suas botas estavam afundadas na grossa camada de neve, os flocos que caiam em seu nariz, impassível, entre seus olhos frios e vermelhos, uma perfeita estátua, observando e sentindo, esperando o momento certo, esperando algo que nem sabia o que. Algo o trouxera até ali, antes a intuição, depois a certeza, seu amuleto o chamava, seu diário, pelo qual procurou tanto e por tanto tempo, de repente o acordou, e sentiu-se ameaçado pela primeira vez em alguns séculos. Sua euforia era tal, que se não fosse a neve, a encobrir os cheiros das pessoas que passavam por ele, que poderia trazer problemas, mas nada desviava sua atenção do cômodo isolado, do quarto 2 andares acima de onde ele estava, de onde podia ouvir o que ninguém a sua volta ouvia.
Estava parado em um canto mal iluminado, chegara à Londres não fazia muito tempo, mas já conhecia os lugares, e o que não conhecia tratou de investigar, o que para ele era nada mais que uma diversão, mas a muito ele não sorria, talvez nem lembrasse mais seu ultimo motivo sincero para isso. Não depois que se tornou uma sombra.

1 comentário

Arquivado em A Rosa de Prata, Contos, Livros

Haeven Hazy – Um dia Comum

Um dia comum-
Quando nada é o Que Parece
E Não Sabemos de Mais Nada

Um mundo tão vasto, num mundo tão pequeno. Um lugar tão grande dentro de outros lugares. Um lugar onde tantas sombras se concentram. Um mundo onde ainda se completa a escuridão das salas e lugares onde a luz não mais ilumina.
O que se esconde atrás de tantas sombras? O que se esconde atrás dos arcos e se perde em meio a desconhecidos? Tantas coisas que se perdem em cada porta, cada palavra não ouvida e ficam tantas presas na garganta. Ela para e percebe que o melhor é continuar andando.

Uma garota caminha por uma rua escura e anormalmente vazia. O som dos seus passos ecoa e seu vulto pouco nítido é o único presente ali. A brisa noturna é como um sopro gélido em seus cabelos, e ela se deixa levar. Uma pedra solta, uma falha na calçada, de repente um baque as suas costas a faz olhar para trás…
Vazio. Continuar lendo

2 Comentários

Arquivado em Haeven Hazy, Livros

O Sobretudo Vermelho – A Idéia

Saudações leitores, viajantes líricos e entusiastas do mundo das palavras, é com alegria que inicio aqui uma nova seção do blog, a categoria de Livros, os projetos pessoais mais longos e antigos entre os meus escritos, e ironicamente os mais atrasados enquanto conclusão e definição de detalhes, formas e enredos. Tratarei neste primeiro a inspiração, como surgiu e como tem sido feito, a partir dos próximos posts, o gosto dos capitulos completos, e dos demais livros.

Apresento aqui, não sem certo receio, uma breve definição do mais novo entre os projetos, e um dos quais me vi totalmente cercado por sua história, não como autor, mas como personagem, como parte presente, como se a história não viesse de mim, mas através de mim, como um veículo que transmite o que lhe é passado, a história cresce em minha mente, como massa de pão esperando para ser assado. Que seja doce o pão, que sejam intensas as palavras, que o enredo lhes carregue como o vento que sopra as copas das arvores. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Livros, O Sobretudo Vermelho