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Livro sobre a história de minha vida, uma espécie de auto-biografia com elementos fantásticos, magia e criaturas sombrias

Roda da Fortuna – Palavras

Poderia dizer tantas coisas… Tantas, que não me cabem no pensamento. Tantas que esqueço ou me escapam antes mesmo de poder tê-las na retina, antes do papel, amassado, tombar na lixeira sempre ao meu lado, sempre receptiva as minhas oferendas de noites sem conta, de dias que rabisco, escrevo, descrevo, desenho linhas desconexas sobre traços paralelamente entrelaçados, entre gotas de orvalho em rosas que crescem em  meio a tempestade e formigas que se escondem sob folhas grandes demais. Materializo no som do silêncio que me cerca as idéias que não conto, não sussurro, nem mesmo atrevo dizeres ou descrições. Por que?

Para que não sejam corrompidas por pensamentos falsos, por venosas idéias de sopros que o vento trás pela janela, fechada, que separa meu mundo do resto… Não tenho um mundo meu, se já o tive o perdi a muito tempo, um castelo de vidro que  vi fecundar dos raios e das faiscas da minha antiga inocência na areia da realidade que tentei fugir, ainda criança, pela tristeza que me era emanada, na qual nunca me encaixei por que, até um (in)certo dia eu ainda era feliz demais. Uma fortaleza  interior, exterior, superior e ao mesmo tempo inferior, transparente, translucida,  lucida, Luz! Raios que refletem e reverberam entre a crueldade mascarada e as palavras  de afeto modificadas, moldadas, esquecidas em corredores estreitos de paredes grossas; que mesmo tendo visão de fora, estava dentro, isolado, ‘protegido’ de um mal que sentia, mas não sabia se era mesmo real.

Via minhas memórias bloqueadas, como peças em gelo, quadros de tintas que nunca  secam, musica que nunca se encerram, e esmiuçam suas notas até desaparecer no  desafeto de outra valsa repetida e remarcada, nos mesmos passos, na mesma dança cega. Refiz passos, desviei olhares, ignorei avisos e me atirei no abismo de minhas idéias, sozinho. Mas não sem antes desviar do que tanto me ‘protegia’, encontrar falhas, brechas, uma saída por menor que fosse, aí me entreguei com todas as forças, arrisquei alto demais, apostei minha vida e o que ainda sobrava de minha sanidade. Entreguei-me assim a minha própria loucura, inata, imaculada, escondida, real. Abri portões e passagens proibidas, contrariando os avisos por ser novidade no mundo, e  por sê-lo o fiz, como é próprio e expectado por uma criança que falava com amigos  ‘imaginários’ e se isolava do mundo, de todos pra brincar ou apenas pensar, sozinho com estranha naturalidade, com tanta ‘coragem’ e  certeza, como soube depois ser esta a opinião de quem assistia meus atos, por olhos velhos demais, por idéias à muito ignoradas. Castelo que vi se erguer na areia do tempo, e que quebrei com minhas próprias mãos, em busca de minha própria liberdade, aceitando os desafios e perigos ‘cedo demais’ vendo o mundo com olhos que crianças nem mesmo sonham em ter. O vento sopra folhas umidas enquanto minha mente vagueia e o assunto inicial se perde  em tantos outros… Idéias rápidas demais, muitas delas, das quais nunca saberei, das  quais muitas esquecerei, pela lentidão do registro das palavras que pesco no ar  enquanto elas passeiam acima dos meus olhos. Assim a Roda gira, assim se dá a primeira volta.

(02h16min
07/03/2010)

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